Se pensarmos no trabalho criativo como icebergs, poderemos dividi-lo em duas partes:

Por um lado, temos a ponta do icerberg e por outro lado temos o imenso bloco de gelo (sabidamente a sua maior parte) submersa embaixo d’água.

Por analogia, “a ponta do iceberg” corresponde à parte visível do trabalho criativo, que se materializa, por exemplo, no álbum de um músico, no livro de um escritor, no filme de um cineasta e assim por diante.

Da mesma forma, o bloco de gelo submerso, que ninguém vê, corresponde ao processo criativo completamente subjetivo que leva, muitas vezes, anos até criar a estrutura suficiente para emergir, tornando-se aparente e visível a todos.

Pois bem, exceto pelas bolsas estudantis, a grande maioria, ou praticamente todos os meios de financiamento que existem hoje se propõem a financiar a ponta do iceberg. Mesmo sabendo da importância do bloco de gelo submerso para chegarmos à ponta do iceberg, os únicos financiamentos que encontramos por aí, bancam essa que é a menor parte, o resultado final ou a consolidação de um longo processo criativo.

E se existisse a possibilidade de financiarmos também esse iceberg imenso que se encontra submerso embaixo d’água?

Deixando momentaneamente de lado as metáforas, acreditamos que qualquer pessoa é um(a) fazedor(a) em potencial e queremos que aqueles que se sentem chamados a criar (fazer!) possam se entregar a essa atividade de forma constante e tranquila, contando com o respaldo financeiro de pessoas dispostas a valorizar essa produção.

Porque, se por um lado o grau de desenvolvimento tecnológico que alcançamos conferiu maior autonomia aos fazedores para que produzam o seu próprio trabalho, por outro, eles não contam mais com o aparato de comercialização, distribuição e divulgação oferecido anteriormente pelas indústrias culturais (fonográfica, cinematográfica, editorial, radiofônica, televisiva e jornalística). A falta desse aparato faz com que os fazedores e fazedoras acabem exercendo muitas dessas funções sozinhos, mesmo não sendo suficientemente remunerados para conseguirem viver disso.

Tal condição pode acarretar um desestímulo a quem dedica o seu tempo e energia à geração de conteúdo, ou até mesmo numa inibição prematura de quem gostaria de tentar se dedicar profissionalmente a algum tipo de fazer que lhe inspire (a velha história do “faz medicina, meu filho, porque artista passa fome”).

O que queremos é que as pessoas tenham a chance de poder mergulhar em sua produção, oferecendo para o mundo resultados criativos cada vez melhores. E que o mundo (todos nós) possa cuidar melhor destas pessoas.

Para isso, precisamos de novos e melhores modelos, diferentes dos praticados pela velha indústria, e entendemos que esse caminho passa pelo fomento de uma cultura de solidariedade, de cuidado e de reconhecimento de valor entre as pessoas, na qual sejamos nós os que decidem onde colocar nossa atenção e nosso dinheiro.

Desejamos, dessa forma, que público e fazedores também possam crescer juntos, produzindo, realizando, experienciando cada vez mais e melhor.

E que tenham, sobretudo, uma relação mais próxima e significativa. Porque o mundo dos astros intocáveis, aqueles que vivem no “mundo das estrelas”, distante do resto da humanidade, está morrendo junto com a velha indústria.

Queremos celebrar o mundo dos semelhantes, das pessoas de carne e osso.

Queremos desmistificar técnicas de produção, abrir caixas pretas de processos criativos de artistas, achar novas lógicas de relação entre todos os envolvidos (fazedores, público, comunidade), para benefício de todos e todas.

E que cada vez mais pessoas possam se dedicar à criação sendo amparadas diretamente por um público interessado em consumir, usufruir e valorizar seus fazeres.

Afinal, se a tecnologia mudou a forma de produção, então ela também pode revolucionar a forma de sustentar e de ser sustentado.

Muito se diz que a educação deveria ser a prioridade das políticas públicas, já que ela é a solução para os demais problemas. Mas a valorização da cultura, antes de passar pelo governo, passa por cada um de nós através do reconhecimento do trabalho de quem realiza coisas que nos inspiram, divertem, informam e ajudam a aprender. Se podemos esperar que os governantes percebam e façam algo a respeito disso algum dia (e é válido que lutemos para tanto), sabemos da nossa capacidade, enquanto sociedade civil, de fazer isso agora.

E fazer imediatamente, de forma massiva e distribuída, já que hoje, mais do que nunca, temos as condições tecnológicas e sociais necessárias para aproximar o público de quem produz, sem intermediários na comunicação.

Sim. Estamos falando do mecenato do século XXI, baseado não em um grande e rico apoiador, mas distribuido em muitos pequenos fãs-mecenas que possam destinar pequenas quantias de seu orçamento, por mínima que seja, para oferecer um apoio recorrente, podendo obter recompensas como retribuição pelo apoio oferecido.

Neste contexto, é fundamental que quem se sente motivado a apoiar possa fazê-lo de forma fácil e flexível, para que todo e qualquer ímpeto de colaboração dos fãs possa se traduzir em apoios concretos.

Retomando a metáfora do iceberg, as primeiras plataformas de financiamento coletivo baseadas em projetos, financiam principalmente “pontas de icebergs”, sem perder seu mérito como alternativa independente às escassas opções de recursos provenientes de editais públicos, leis de incentivo, empresas patrocinadoras e sistema financeiro.

Contudo, cremos que é possível ir além, e entendemos que uma plataforma com foco no processo criativo seja o passo que falta em direção a uma sustentabilidade financeira de longo prazo, voltada para a produção de conteúdo independente e de qualidade. Precisamos tomar consciência, como sociedade, da importância de financiarmos “a maior parte do iceberg”.

Queremos, portanto, que as pessoas apoiem financeiramente os fazedores e fazedoras, não necessariamente como requisito para acessar uma produção, mas porque reconhecem valor no trabalho de quem se dedica a criá-lo.

Entendemos que a motivação mais básica que pode levar alguém a apoiar um(a) fazedor(a) é simplesmente o apreço pela criação, e a vontade de que essa iniciativa siga sendo realizada.

Sobrepondo-se a isso podem vir outras vontades, como aprender com o trabalho de quem se admira para produzir algo semelhante ou simplesmente ter uma relação mais pessoal e significativa com quem cria o conteúdo que tanto se admira.

No final do dia, não importa tanto qual é a motivação, mas sim que essa necessidade se torne consciente, e que a consciência se traduza em ações práticas.

Este manifesto expressa a ideologia que motivou a criação da plataforma para financiamento coletivo e contínuo de fazeres  — APOIA.se, criada por e voltada especificamente para fazedores e fazedoras de iniciativas que geram valor ao mundo, seja ele qual for.

Muito obrigado pela sua atenção! Se o que foi apresentado aqui tocou você de alguma maneira, sinta-se convidado(a) a nos acompanhar e se juntar a nós em APOIA.se!

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O que é o APOIA.se?

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  1. 10 de fevereiro de 2019

    Excelente iniciativa. Parabéns

  2. 23 de fevereiro de 2019

    Muito bem pensado… adorei esse post.

  3. Iani
    24 de março de 2019

    Muito lindo esse trabalho!
    Que Deus abençoe sempre essa equipe!

  4. Maria Helena Caldas
    19 de abril de 2019

    Maravilhoso seu texto e seu intento Ilana. Todo apoio ao Apoia-se. !

  5. Vera
    27 de julho de 2019

    Fantástico ! Tomara que continue assim como acabei de ver e aplaudir ! Que o sucesso não detone a pureza de vcs !
    Parabéns a todos! Isso se chama recriar!

  6. 24 de agosto de 2019

    Gostaria de bater um papo com voces .
    Sou empreendedor da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco há 24 anos : bora conversar ?

    Abraços

    Rogerio Robalinho

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