Pedro Leite é o nome do artista por trás de criações que circulam bastante pela internet, em forma de tirinhas e histórias em quadrinhos. Nomes como Sofia e Otto, Quadrinhos Ácidos e Tirinhas do Zodíaco fazem parte do dia a dia de quem entrou para o Clube do Pedro Leite, nome que ele deu para a campanha que mantém no APOIA.se desde o início da plataforma.

Por acaso (ou não) o Pedro também é vizinho do escritório do APOIA.se, e por estar a uma parede de distância resolvemos puxar um papo mais demorado e trocar ideias sobre os desafios e recompensas dessas histórias que temos compartilhadas. Confere aí!


APOIA.se: Qual foi o motivo que te fez procurar o financiamento coletivo?

PEDRO: O principal motivo foi que, no meu caso, eu já tinha um grande público na internet. A primeira vez que eu busquei o FC (que na época foi um pontual), foi pra minha primeira série de quadrinhos, chamada Tirinhas do Zodíaco – isso já deve ter uns seis anos. A gente mal tinha facebook na época mas ja tava viralizando bastante. Então ouvimos falar de FC e foi a primeira vez que fizemos uma campanha, pra produzir o livro. E foi muito bacana! A gente não entendia direito como funcionava, mas o argumento que nos motivou a procurar essa opção foi por que escutamos que pra fazer esse tipo de campanha antes tinha que ter um público, e a gente já tinha um público seguidor. Não lembro o número, mas acho que na época era algo em torno de 20 mil curtidas na página.

Penso que a mesma coisa vale pro APOIA.se. Sempre se algum amigo meu, artista, pergunta se vale a pena entrar num FC, eu sempre comento que a primeira coisa é ter um público. Eu acho que não adianta criar um FC se ninguém conhece o teu trabalho. Eu sempre acreditei no meu trabalho e via que, com o grande numero de seguidores, talvez uma parte deles pudesse contribuir financeiramente com meu trabalho. Admito que se eu não tivesse tantos seguidores eu talvez teria vergonha de criar uma campanha de FC.. tendo bastante seguidores eu já comecei mais otimista. De uma certa maneira já é uma mostra de que o trabalho já tá indo bem.

Eu sempre acreditei no meu trabalho e via que, com o grande numero de seguidores, talvez uma parte deles pudesse contribuir financeiramente com meu trabalho.

A: Como é teu planejamento financeiro?

P: Difícil responder isso porque eu não sou muito organizado. Apesar de eu não ser “só” o artista (eu organizo tudo, eu crio media kit, eu vou atrás de patrocinador…), de fazer muito mais do que quadrinhos eu não me considero muito organizado na questão financeira. Faz 5 anos que eu saí de agência de propaganda (sou publicitário, diretor de arte, saí de agência porque eu não aguentava mais trabalhar com isso). Foi bem na época que eu estava começando a enxergar uma luz no fim do túnel com os quadrinhos. O que eu ganho hoje com quadrinhos é vendendo livros em FC pontual e em eventos (2 ou 3 grandes por ano, viajo e participo deles). Porem é um ganho esporádico. Não posso dizer que meu planejamento é em cima disso… tenho feito frilas e outros trabalhos com publicidade, mas pretendo realmente viver só de arte, em breve.

Outra importante fonte de renda é o APOIA.se. Meu clubinho não tem tantos seguidores, mas já ganho uma boa ajuda. Algumas mudanças no contexto financeiro do país e no redirecionamento do facebook fizeram isso mudar, mas ainda assim é significativa essa entrada de grana.

A: Tu considera teu trabalho com quadrinhos arte ou considera profissão?

***Pergunta besta essa nossa, levamos um “xixi” do Pedro (que achei melhor não transcrever aqui hehe). Foi um deslize no momento de elaborar a pergunta, mas felizmente ele entendeu que não era bem isso que queríamos saber e respondeu prontamente!*

P: Num momento em que eu já ganho um “troco” com os livros, em que eu já tenho tirinhas saindo em livros didáticos e eles me pagam pra publicar uma tirinha em disciplinas de português/literatura – falando de modo bem lógico, se minha arte me dá dinheiro isso já é uma profissão. Mas antes de qualquer coisa eu enxergo como arte, como uma forma que tenho de me comunicar com o mundo, e principalmente de fazer com que os leitores conversem, comentem, debatam, compartilhem entre si, e que isso gera uma conversa sobre os assuntos que eu abordo. Muitas vezes falo sobre assuntos delicados como machismo e racismo, sobre religião – são assuntos que considero interessantes de serem debatidos. Fico muito feliz quando isso viraliza e faz as pessoas conversarem entre si. Muitas vezes recebo elogios como “que interessante esse quadrinho, que bom existir um autor que aborda esses temas!” – então me sinto útil pro mundo com esse tipo de arte. Então eu encaro como os dois – como arte e como trabalho, ao mesmo tempo. Meu objetivo é ganhar a vida com isso 🙂

A: Quais são os principais desafios que se apresentam na relação com o teu público?

P: Acho que a coisa mais dolorida que eu descobri com o meu público é que, mesmo sendo muito numeroso, não é tão fã do meu trabalho quanto eu imaginava. Vou explicar: quando eu estava criando a série Quadrinhos Ácidos, tive grande retorno de público na internet. Na época, uns 3 anos atrás, eu tinha 300 mil seguidores no facebook. Isso era quando as pessoas ainda não reclamavam do facebook – ele exibia as postagens pra bastante gente, então era uma época boa. Meus amigos quadrinistas que já faziam sucesso tinham em média 30 mil seguidores – ou seja, eu tinha muito mais do que eles. Foi quando eu lancei um FC do livro do Quadrinhos Ácidos, e foi um desastre. Bateu a meta mas vendeu 10 vezes menos do que eu esperava. Esses meus colegas, por exemplo, venderam mil ou 2 mil livros nos seus FCs – isso é muito pra uma obra indeṕendente. Eu esperava alo como 5 mil e vendi 280 livros. Com isso eu descobri que o público dessa série era muito grande, compartilhava muito os quadrinhos, mas nao era fã a ponto de comprar as coisas. Diferente de outra série que fiz antes, que era Tirinhas do Zodiaco (uma paródia dos Cavaleiros do Zodíaco), com um público muito mais específico, menor (em torno de 20 mil seguidores) mas que era muito mais fã. Então é aquela questão: o que vale mais, 20 mil que adoram teu trabalho ou 300 mil que estão “só” gostando e não querem apoiar? Esse foi um desafio que tenho desde cedo. É ainda mais curioso ver que em eventos o livro vende bastante, e muitas das pessoas que compram até já conheciam pela internet – mas não o compraram quando ficaram sabendo dele.

Outro desafio vem com o financiamento contínuo também: como fazer com que o leitor não só compre o livro, mas que queira apoiar mensalmente? Manter um clubinho é muito mais vantajoso do que vender livro – mesmo sendo coisas diferentes. Tem gente que doa como se estivesse comprando um livro por mês. Eu não preciso enviar um livro por mês, posso enviar outros materiais mais fáceis. Muita gente apoia com valores baixos, mas no final do ano acaba sendo uma grana boa! Hoje eu acho que o sistema de financiamento recorrente tem sido muito mais importante, pelo menos pra mim, do que vender livro por financiamento coletivo. Vender livro dá mais trabalho do que manter um clubinho, e acaba dando mais retorno. Esse é outro desafio que quero lidar – descobrir como ganhar mais apoiadores contínuos. O livro da Amanda Palmer (a arte de pedir) fala bem isso: que ela consegue, com a arte dela, tocar o coração das pessoas a ponto de elas darem dinheiro pra ela, e isso eu ainda não sei bem como fazer tão bem.


A: Como tu percebe o retorno da comunidade?

P: Além do financeiro, Sofia e Otto, por exemplo é uma série que tem uma personagem negra, e ela é a principal, e diferente dos estereótipos e clichês ela é inteligente, atua muito nos quadrinhos – com isso não precisa nem falar em racismo. Só por ser uma personagem que está lá representada daquela forma é o suficiente pra algumas pessoas me enviarem mensagens dizendo “Olha, finalmente eu tô me sentindo representado!”, e isso é muito legal, fico muito feliz! Muitos quadrinhos também falam de feminismo e têm muitas mulheres representadas. Tanto que o público da série é formado em 72% por mulheres, algo diferente do padrão dos quadrinhos. Eu acho isso muito bom. Então o retorno é esse: que a série tá bacana, que a série traz ideias ótimas pro mundo. Tô fixando meu nome de artista como uma pessoa que trabalha esse tipo de conteúdo. Mesmo não sendo mulher eu falo sobre machismo, mesmo não sendo negro eu falo sobre racismo, mesmo não sendo gay eu falo sobre homofobia – eu tô ganhando essa imagem.

Eu fui o primeiro a ter clubinho no APOIA.se, tô desde o inicio da plataforma nela. Muito legal é que tenho uma comunidade que gosta de estar perto. Converso com vários artistas sobre isso e a conclusão é a mesma: quem apoia quer estar perto, ver o making of, os bastidores, pra saber se o cara pensou numa tirinha mas aí o cachorro mordeu ele e ele não vai poder fazer a tirinha naquele dia mas ele compartilha essa informação. Pequenas coisas do dia a dia, sabe? Isso é o que eu percebi que o público mais quer. Me retornam com um apoio muito mais próximo do que qualquer outro tipo de leitor. Como mantenho uma conversa mais próxima com esses leitores sinto que eles retornam de uma maneira mais íntima, sem papas na língua. Se a tirinha tá ruim ou se acham que tem que melhorar eles falam de cara – se tornam amigos! Gosto muito quando as pessoas conseguem fazer encontros como jantares e levar essa relação de amizade pra além do online. Além de dinheiro, é um apoio moral muito forte. Sempre tendo como pano de fundo aquele entendimento de que viver de arte no Brasil é muito dificil, então as pessoas apoiam mesmo, sabendo que isso faz muita diferença pro artista.

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