“Daí chega o dia que falei no palco do salão de Atos da UFRGS
Foi uma emoção foda irmão CARALIOMANO!
Quando a Luna Vitrolira me chamou pra falar foi automático bah não vou
Mas daí pensei a chance tá aí vamo dale!
O coração batia afu tipo descompasso
Pensei na vó Dona Terezinha imaginei que ela estaria lá vendo
Me concentrei no texto meio no improviso
Uma lágrima veio no canto do olho mas ninguém viu
Senti o abraço de quem amo
Me senti vivo
É difícil ser sensível no meio da violência
Mas necessário
Pensei naquela gurizada ali
o olhinho brilhando
Depois algumas professoras disseram que os alunos gostaram do que falei
Daí a emoção bate de novo
É difícil (mas possível) ser sensível no meio da violência

Marlon Pires Ramos

Ao ler as palavras do Marlon, o arrepio e a emoção são inevitáveis. Mais do que o registro de um fato, elas documentam um momento simbólico com toda sua beleza e potência: quando o Marlon passou de espectador a um dos protagonistas da FestiPoa Literária – um dos maiores e mais importantes festivais de literatura do Brasil.

Foi a partir da experiência de assistir ao evento em 2018 e sentir-se representado pelas vozes que passavam pelos palcos (e rodas de conversa e mesas de autógrafos, e bancas de livros…) que o Marlon compreendeu que poderia traçar uma jornada diferente do que ele via, até então, na maioria dos jovens com histórias de vida parecidas com a sua. No país em que pessoas de pele negra são alvos diários de preconceitos e violências de múltiplas naturezas, a FestiPoa Literária lançou uma luz sobre outros futuros possíveis pra esse cenário tão desumano.

Desde o seu  início a FestiPoa promove a pluralidade e a democratização de saberes através de shows, debates, rodas de conversa, exposições e performances diversas: um genuíno Festival de Literatura. Na edição de 2019 a homenageada foi a filósofa e doutora em educação, Sueli Carneiro – nome expressivo do feminismo negro e na luta antirracista no Brasil.

Mas e o que o APOIA.se tem a ver com a FestiPoa?

Em 2019, na sua 12ª edição, a FestiPoa teve seu Programa Educativo viabilizado por Financiamento Coletivo, aqui pelo APOIA.se! O objetivo era oportunizar que do evento participassem centenas de jovens de escolas de regiões periféricas da metrópole gaúcha. Os jovens puderam se deslocar até o local da FestiPoa, assim como a FestiPoa foi até suas escolas, em atividades como saraus e oficinas.

Chegada dos(as) estudantes ao Salão de Atos da UFRGS. Foto: Produção FestiPoa 2019

Em uma das atividades do Programa Educativo da FestiPoa centenas de alunos(as) de escolas periféricas de Porto Alegre e região  foram até o Salão de Atos da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), para participar da atividade “Encontro com escolas de Porto Alegre”. No palco, frente a frente com o público,  falava o rapper Rincon Sapiência – com mediação da também rapper e educadora Negra Jaque.

Nessa tarde, ônibus lotados de estudantes de 11 diferentes escolas preencheram o teatro do Salão de Atos da UFRGS. Muitos desses meninos e meninas nunca antes haviam pisado numa universidade.

“Eu não tinha dimensão da quantidade de jovens que iriam participar desta atividade (…) foi algo lindo, desafiador e o era evidente quanto era importante passar uma mensagem naquele bate-papo. Depois que eu vi que quem tava ali era uma galera da Restinga, que era uma galera negra da periferia, pra mim foi importante falar o quanto eles precisavam resistir” – Negra Jaque.

Rincon Sapiência e Negra Jaque. Foto: Josemar Afrovulto

“Realmente o projeto educativo foi um dos pilares dessa 12ª edição. Ele já havia se fortalecido e se criado nestes termos que ele chegaria na 12ª edição com pedido da homenageada na 11ª edição, que era a Conceição Evaristo, ela própria pediu que houvesse esse momento de troca com as escolas, de visitar as escolas de periferia, e aí então nessa 12ª edição a gente achou que era importante manter e ampliar esse processo.” – Fernanda Bastos, jornalista, escritora e mediadora da abertura da FestiPoa 2019.

Auxiliar no planejamento da campanha da FestiPOA foi uma missão que abraçamos com gigante entusiasmo desde a primeira reunião que tivemos com o grupo organizador, lá no final de janeiro. Dali em diante ainda viriam muitas horas de trabalho conjunto, feito a várias mãos.

E é de mãos dadas que seguimos, pra que iniciativas como a FestiPoa e histórias como a do Marlon frutifiquem e sejam multiplicadas 🙂

Texto: Aline Silveira e Sheila Uberti

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