Se você tem acompanhado minimamente a mídia televisiva ou online por esses dias, possivelmente já se deparou com alguma notícia recente sobre o futebol feminino. Em 2019, pela primeira vez o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino está sendo transmitido em televisão aberta –  assim como a Copa do Mundo Feminina, este ano sediada na França. É também a primeira vez que as jogadoras da seleção brasileira têm um uniforme exclusivo (embora este ainda carregue as estrelas referentes às conquistas da seleção masculina…). Quem coleciona álbuns de figurinhas pôde adquirir, desde abril,  o primeiro álbum de figurinhas com as seleções que estão participando da 8ª edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino.

Para que possamos ter uma noção do quanto cada uma dessas conquistas é expressiva, vale sinalizar que durante os anos de 1941 a 1979 vigorou uma lei que proibia que mulheres jogassem diversos esportes –  entre eles o futebol. Tal proibição gerou reflexos que persistem até hoje, como o pouco incentivo (em várias frentes: cultural, política, social, midiática…), baixos salários e falta de patrocínios. A regulamentação da categoria só chegou em 1983!

Embora alguns passos já tenham sido dados em direção a uma maior equidade de gênero no futebol, ainda há uma longa jornada pela frente. Foi preciso uma exigência da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol, a nível de Brasil instaurada pela CBF, a Confederação Brasileira de Futebol) para que os clubes da série A do campeonato brasileiro também passassem a investir na categoria feminina, e com isso criar incentivo para desenvolvê-la . Apesar disso, a maioria dos clubes de futebol feminino não possuem estruturas adequadas e muitas jogadoras nem salários recebem.

Diferente da categoria masculina, em que os clubes apostam na formação de base (aos 4 anos de idade, jogadores já podem ingressar!), no caso das meninas no Brasil há raras instituições que oferecem trabalho de base completo (da infância até os 17 anos). O Centro Olímpico é uma delas, um centro de formação de atletas que desde 2011 coleciona diversos títulos no Brasil, na América-latina e nos Estados Unidos.

Centro Olímpico: uma base forte para o futebol feminino brasileiro!

Imagem: Centro Olímpico Futebol Feminino / Facebook

Um passo à frente da maioria dos projetos de futebol, o Centro Olímpico foi criado exclusivamente para meninas. São equipes de sub-11, sub-13, sub-15 e sub-17. O projeto conta com o apoio da prefeitura de São Paulo, além de algumas parcerias e patrocínios. A instituição hoje atende mais de 100 crianças e é o único clube (sem contar as escolinhas particulares) no Brasil a ter time competitivo para meninas dessa idade.

“O Centro Olímpico é o principal projeto de formação de atletas do futebol feminino brasileiro (…) Já tivemos mais de 500 atletas, com 54 meninas na Seleção Brasileira e tantas outras jogando em grandes clubes, como Corinthians, São Paulo e Santos. As meninas entram no clube com 8, 9 anos e podem sair com 17, como jogadoras de futebol feminino. Nesses anos de trabalho somamos alguns títulos importantes a nível paulista, brasileiro, sul-americano e mundial.” – Rodrigo Coelho, supervisor técnico e treinador da categoria sub-15.

O Centro Olímpico, que já teve diversas atletas que passaram pela seleção brasileira, iniciou sua campanha aqui no APOIA.se no mês passado. Rodrigo ressalta a importância do Financiamento Coletivo para o Centro:

“Realizamos peneiras gratuitas mensalmente com número médio de 80 meninas. O aumento da visibilidade no futebol feminino irá trazer benefícios de curto a longo prazo. Sem dúvida o interesse público aumentou, empresas estão olhando para esse esporte com outros olhos, querendo investir. Isso beneficia diretamente atletas e equipes. À longo prazo, as próximas gerações de meninas terão o seu espaço de prática sem precisar sofrer com preconceito ou com a invisibilidade com que o esporte feminino sempre foi tratado.” – Rodrigo Coelho

Como falamos no início do post, o futebol feminino ainda carece de incentivos, especialmente financeiros. Para se ter uma ideia, o que a Fifa (Federação Internacional de Futebol) paga às seleções participantes da Copa do Mundo feminina não chega a 1% do que foi pago para os homens em 2018.

Marta ao abrir placar na Copa do Mundo da França
Imagem: Jean-Paul Pelissier/Reuters

Já quando se fala de visibilidade, é quase impossível não citar o exemplo da  jogadora da seleção brasileira, Marta, que ao fazer o primeiro gol da seleção brasileira no jogo com a Austrália, na Copa 2019, comemorou apontando para o símbolo de igualdade de gênero da chuteira. Com este gol, Marta se tornou a primeira atleta da história, entre homens e mulheres, a marcar em cinco edições de Copa do Mundo. Além disso, com 17 gols Marta se torna a maior artilheira da história das Copas do Mundo. Mesmo com esses impressionantes feitos, Marta ainda é praticamente desconhecida quando colocada em comparação com outros nomes de relevância do futebol masculino.

E você já parou pra pensar quantas Martas ainda podem estar por aí, só esperando uma oportunidade de serem descobertas e de terem acesso a uma formação de qualidade no futebol feminino?

Imagem: Centro Olímpico Futebol Feminino / Facebook

Ampliar as possibilidades de desenvolvimento e crescimento do esporte para as meninas e mulheres passa por fortalecer a cultura do futebol feminino como um todo. Quanto mais o tema tiver visibilidade, maiores as oportunidades de alcançar a equidade de gênero no futebol.

Junto com Marta, com o Centro Olímpico, com as famílias, torcidas e com tantas outras organizações que atuam dentro e fora dos gramados pela equidade de gênero no esporte, o APOIA.se deixa aqui o chamado: vamos torcer e apoiar as nossas meninas e mulheres no futebol!

Texto: Aline Silveira
Imagem destacada: Danilo Verpa / Folhapress

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